Devedoras contumazes do setor de cigarros movimentaram mais de R$ 2 bilhões em 2025, aponta pesquisa Ipsos Ipec
SÃO PAULO, 16 de junho de 2026 /PRNewswire/ -- Um modelo de negócios montado na inadimplência tributária sistemática. É assim que podemos classificar os grupos conhecidos como devedores contumazes. Ao burlar o fisco no mercado de cigarros, eles conseguem oferecer o produto a um preço bastante inferior do que as marcas regulares. Atualmente, o cigarro ilegal sai, em média, a R$ 5,60 o maço enquanto que o legal é comercializado por cerca de R$8, de acordo com pesquisa Ipsos Ipec, encomendada pelo FNCP (Fórum Nacional contra a Pirataria e a Ilegalidade). Dessa forma, as empresas ampliam a competitividade de forma artificial, pressionando o mercado formal e comprometendo a arrecadação pública.
Diferentemente do devedor eventual — que enfrenta dificuldades pontuais de caixa — o devedor contumaz estrutura sua atuação sobre a sonegação deliberada e recorrente de tributos. Essa prática impacta diretamente o financiamento de políticas públicas e distorce a concorrência.
A dimensão do problema é expressiva. Apenas no setor de cigarros, a dívida acumulada de 5 dessas empresas alcançou R$ 3,82 bilhões em janeiro de 2026, também de acordo com dados da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e estados.
De acordo com projeções do Ipsos Ipec, essas empresas comercializaram 6,85 bilhões de unidades de cigarro em todo o país ao longo de 2025, movimentando R$ 2,2 bilhões. O volume evidencia a escala da operação e seu potencial de dano econômico. A maior concentração dessas empresas está nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, principais polos de atuação desse tipo de prática no país. Algumas dessas grandes fabricantes já tiveram, inclusive, seus registros cancelados algumas vezes, mas conseguiram reverter as decisões e continuar operando.
O tema ganhou ainda mais relevância após a atuação recente da Receita Federal. Em 28 de abril deste ano, o órgão notificou 13 empresas do setor, cujas dívidas somadas ultrapassam R$ 25 bilhões. De acordo com informações da Receita e da PGFN, apenas duas dessas companhias possuem débitos inferiores a R$ 1 bilhão, enquanto sete delas controlam, juntas, ao menos 12% do mercado nacional de cigarros. As investigações também apontam indícios de ocultação de beneficiários finais e possíveis práticas de lavagem de dinheiro, o que levou ao acionamento do Ministério Público Federal e da Polícia Federal para apuração de responsabilidades criminais.
Caso não apresentem defesa no prazo de 30 dias, essas empresas poderão ser formalmente enquadradas como devedoras contumazes. Pela legislação, enquadram-se nesse conceito empresas com débitos irregulares superiores a R$ 15 milhões e acima de 100% do patrimônio, ou com inadimplência recorrente sem justificativa plausível.
Para o presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade (FNCP), Edson Vismona, o fenômeno ultrapassa a esfera tributária e se conecta a estruturas mais amplas de criminalidade econômica. "Não estamos mais lidando com ações criminosas isoladas e, sim, com práticas que afetam toda a nossa economia, nosso sistema econômico e a figura do devedor contumaz é uma vertente dessa grande estrutura criminosa", afirma.
Ilegalidade no setor de cigarros: uma questão estrutural
Os números expõem uma emergência econômica e de segurança pública: o mercado ilegal consolida o cigarro como um dos principais vetores de financiamento do crime organizado. De acordo com pesquisa do Instituto Ipsos Ipec (2025), 31% dos cigarros vendidos no Brasil são ilegais e rendem ao crime o equivalente a R$ 10 bilhões ao ano.
Segundo Vismona, "o alto lucro e a ampla capilaridade tornam o mercado ilícito de cigarros uma das principais atividades criminosas em operação na atualidade".
Foi o que mostrou recente estudo da FGV com base em dados nacionais. Pesquisadores concluíram que cada aumento de 1 ponto percentual na taxa de ilegalidade do mercado de cigarros está estatisticamente associado a 239 novos homicídios dolosos por ano, além de 892 ocorrências de tráfico de drogas, 629 apreensões de armas de fogo, entre outros crimes. Ou seja, as ilegalidades não são fenômenos separados — integram uma mesma cadeia criminosa que conecta contrabando, violência e outros mercados ilícitos. "O mercado ilegal de cigarros usa as mesmas rotas e estruturas de outros mercados ilícitos e financia drogas, armas e combustíveis contrabandeados. Quando ele é contido, a criminalidade cai", conclui Vismona.
FONTE Instituto Ipsos Ipec
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